Efeitos fisiológicos do destreinamento

Professor Esp. Júlio Cesar Papeschi

Professor dos cursos de Pós-graduação da UGF

Coordenador da academia Nº1 SPORT TOTAL

Luiz Carlos Carnevali Junior

Professor e coordenador do curso de Educação Física da Anhanguera de Taboão da Serra

Professor e coordenador dos cursos de Pós-graduação da UGF

Mestre e Doutorando em Ciências pelo ICB-USP

 

destreinoPeríodos de interrupção de treinamento, ou mesmo redução na freqüência, são fatos comuns para praticantes de atividade física, sejam em nível recreacional ou em alto rendimento. Para atletas, o período de destreino pode ser usado como uma estratégia interessante de forma a possibilitar uma recuperação devido a grandes períodos de stress ao que o organismo foi submetido.

Diversos são os motivos que podem ocasionar estas interrupções: desgaste físico e psicológico, lesões, falta de tempo, fase de preparação, entre outros.

Este processo, seja de maneira planejada ou não, pode, dependendo da magnitude, levar a perda de grande parte do trabalho realizado e comprometer uma futura recuperação dos ganhos obtidos. Este processo é chamado de destreino.

Fleck e Kraemer 1999, definem destreino como “um estado de perda do condicionamento adquirido através de um programa de treinamento planejado, seja pela interrupção das atividades ou mesmo pela diminuição das mesmas”.

Para Mujica et al. 2001, destreino é a perda parcial ou completa das adaptações induzidas pelo treino, em resposta a estímulos insuficientes.

Mas o quanto se perde dos valores adquiridos durante o período de treinamento?

O artigo buscará elucidar fatores que influenciam diretamente no destreino como a magnitude da resposta ao período de inatividade.

Gentil (2008), descreve a base do principio da adaptação, como uma tentativa de ajuste do organismo a um estímulo externo que o afasta do equilíbrio. Como adaptações que levam ao ganho de força podem ser citados as adptações neurais, como coordenação intramuscular, intermuscular, distorções na execução bilateral, co-ativação, excitabilidade de neurônios entre outros (Aagaard P. 2003, Enoka, 1997, Kraemer et al., 1996) assim como alterações morfológicas, como o ganho de massa muscular, que contribuíram com o acréscimo na força muscular nas fases mais adiantadas de treinos (Moritani T., 1979).

Segundo Fleck e Kraemer 1999, a velocidade de perda da força depende da extensão do período de treinamento anterior ao destreino, intensidade do treinamento e tipo de teste de força muscular utilizado.

 Diversos são os autores que não verificaram perdas de força com períodos curtos de interrupção de treinamento.Sforzo et al., mostraram que a interrupção do no período treinamento em idosos, não acarretou em perda de força após um período de 5 semanas de destreino.

 Kraemer et al. 2002, verificaram perdas não significativas na força de membros inferiores e superiores para praticantes de treinamento de força submetidos a seis semanas de destreino, havendo somente diferenças para potência.

Em um trabalho interessante, Hakkinen et al. (1995) verificaram os efeitos do destreinamento durante curtos (3 semanas) e longos períodos (24 semanas) de interrupção do treino, com jovens e idosos não praticantes de atividades físicas, submetidos a treinamento de força e explosão. Durante o período de 3 semanas de destreino somente a força isométrica máxima apresentou diminuições significativas. Após o período de 24 semanas foram verificadas diferenças significativas em todas variáveis estudas com exceção do teste do salto vertical que permaneceu com valores próximos aos do pós treino.

 

Para verificar a influência da intensidade de treinamento Harris et al. (2007), submeteram indivíduos idosos destreinados a um treinamento com peso, durante 18 semanas, 2 x por semana com três protocolos de treinamento distintos: 2 x 15 RM, 3 x 9 RM e 4 x 6 RM, com subseqüentes 20 semanas de destreino. Foram avaliadas as capacidades físicas força e potência muscular na 6ª semana e na 20ª semana de destreino. A potência muscular caiu acentuadamente nas primeiras semanas tendo a força se mantido acima dos valores pré treino. A queda da potência observada já em curto prazo, observada na maior parte dos estudos, supõem-se estar relacionada diretamente a rápida perda eficiência neural, que apresenta queda acentuada já nas primeiras semanas de destreino.

Kalapotharakos et al. 2007, treinaram um grupo de idosos moderadamente ativos com baixa intensidade (60% de 1 RM), 3 vezes por semana durante doze semanas. Houve uma interrupção de 6 semanas. O curto período de treinamento associado à intensidade moderada resultou em perda de força e potência, porém esses valores permaneceram acima dos valores pré treino para capacidade força.

 Em outro trabalho que verificou a influencia da intensidade na perda de força, Fatouros et al., submeteram idosos a dois protocolos de treinamento diferenciados durante 24 meses. O grupo de baixa intensidade exercitou-se a 55%1RM com 14 - 16 reps. O grupo de alta intensidade a 82% 1RM com 6 - 8RM. Ambos os grupos foram avaliados em 4, 8 e 12 meses após a última sessão de treinamento, com os indivíduos retornando as atividades cotidianas, sem nenhum tipo de treinamento.

O destreinamento levou a perda de força em ambos os grupos nos três momentos. Porém, para o grupo submetido ao treinamento de alta intensidade os valores ficaram significativamente superiores ao pré-treino até o momento da última medição, fato não observado no grupo submetido ao treinamento de baixa intensidade.

Para atenuar as perdas de força adquiridas após períodos de treinamento alguns autores sugerem como uma forma eficiente de manutenção da força com uma pequena redução no volume de treinamento.

Graves et al. 1998, realizaram um estudo treinando de força de alta intensidade em homens e mulheres durante 10 e 18 semanas respectivamente. Os grupos foram divididos em dois, sendo que o primeiro grupo treinava 3 vezes e o segundo grupo 2 vezes por semana. Ambos foram submetidos a 12 semanas de destreino com redução na freqüência ou interrupção completa. No protocolo de redução de treinamento os indivíduos que treinavam 3 vezes por semana diminuíram a freqüência para 2 vezes e os de 2 para 1 treino na semana. Para o grupo que interrompeu o treinamento completamente os valores da força isométrica permaneceram 32% superiores ao pré treino após 12 semanas. Para os sujeitos que reduziram o volume de treinamento às diferenças não foram significativas. 

Em concordância , Izquierdo et al. (2007), verificaram os efeitos de quatro semanas de interrupção do treinamento ou da redução no volume de treino após 16 semanas de treinamento de força de alta intensidade, em atletas praticantes de Basque ball. Durante o período de treinamento os indivíduos treinavam duas vezes por semana séries para grandes grupamentos musculares, periodizado, com variação no volume durante as 16 semanas.

O grupo que interrompeu o treinamento completamente obteve pequenas reduções de força e grandes perdas na potência muscular, fato esse não observado no grupo que manteve uma quantidade reduzida de treinamento durante o período de destreino. Um dado que chamou atenção no estudo, foi que a avaliação da força, no grupo que realizou o treinamento reduzido, obteve aumento ainda que não significativas na força, até a 4ª semana.

Com relação à composição corporal, Andersen et al. 2005, realizaram um experimento que envolvia o treinamento de força em diferentes velocidade (30° e 240°/s) para membros inferiores durante 3 meses, seguidos de 3 meses de destreino.

Foi verificado um aumento de 10% na secção transversa do quadríceps através de ressonância magnética, voltando aos valores pré treino aos do período de destreino. Neste mesmo estudo, observou-se a diminuição do  percentual de fibras do tipo IIb (aproximadamente 5%) enquanto o houve um aumento de fibras do tipo para IIa por volta de 5,5% logo após o período de treinamento. Após o período de três meses de destreino as características das fibras voltaram às configurações originais.

 

Em conclusão, curtos períodos de destreino (inferiores a três semanas) promovem pequenas perdas na força muscular, mas podem gerar quedas nos níveis de potência. Para períodos superiores as quedas se mostram mais expressivas. Estratégias como a de redução do volume de treinamento pode influenciar positivamente para diminuição da magnitude da perda ou até mesmo a manutenção dos níveis obtidos com o treinamento.

 

 

Referências bibliográficas

 

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  1. Professor Júlio Cezar, o seu artigo é muito esclarecedor para aqueles que gostam de fisiologia e treinamento e muito informativo, baseado em referências atuais e de alta qualidade. Parabéns

    Postado em 14/02/2011

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