Comparação entre as modulações dos níveis plasmáticos da lipoproteína de alta densidade-colesterol (HDL-c) induzida pelo treinamento aeróbio de alta e baixa intensidade

Marcos Maruyama

 Especialista em Bases Fisiológicas e Metabólicas Aplicadas a Atividade Física e Nutrição pelo ICB-USP (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo) e Mestrando em Biociências pela FANUT - UFMT (Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso)

Julio Cezar Papeschi da Silva

 Professor dos cursos de pós-graduação da Universidade Gama Filho

Luiz Carlos Carnevali Junior

 Mestre e Doutorando em Ciências - Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Professor e Coordenador do curso de Educação Física da faculdade Anhanguera de Taboão da Serra, SP. Professor e Coordenador de cursos de pós- graduação da Universidade Gama Filho.

 

ronald-mcdonald-esteira1Para uma melhora na capacidade aeróbia e um efeito cardioprotetor maior, o exercício aeróbio de alta intensidade é claramente mais efetivo que o exercício aeróbio de baixa intensidade. Estudos indicam que atividades anaeróbias e treinamento de força também contribuem de maneira efetiva para aumentos nos níveis plasmáticos da HDL-c. (Cauza e Colaboradores, 2005) (Danladi e Colaboradores, 2009)

Como definição, atividades aeróbias de alta intensidade podem ser classificadas como aquelas que utilizam uma maior quantidade de oxigênio por unidade de tempo, para oxidação dos substratos energéticos. (Yoshioka e Colaboradores, 2001). Alguns parâmetros fisiológicos podem ser utilizados na prescrição do treinamento para o controle da intensidade de esforço. Entre eles podemos citar o volume máximo de oxigênio (VO2 máx), freqüência cardíaca (FC), limiar ventilatório, limiar anaeróbio, e a percepção subjetiva ao esforço, entre outros. (Bhambhani, Singh, 1985)

Mais comumente utilizados na prescrição de exercícios, os percentuais relativos de VO2 máx e de as equações para predição de intensidade baseados na freqüência cardíaca máxima, apresentam uma maneira prática, acessível e confiável de realizar tais prescrições. Na literatura científica valores a partir de 65% do Vo2 máx ou 75% da FC máxima aparecem como as intensidades de esforço para qualificar tais atividades. (Achten, Gleeson, Jeukendrup, 1997)

Com relação ao volume de trabalho utilizado, medidas da quantidade de atividade realizada em um dia ou o volume acumulado na semana são utilizados para quantificar esta variável. Valores a partir de 30 minutos diários ou 150 minutos acumulados em uma semana, aparecem como atividades de alto volume, sendo valores abaixo destes considerados de baixo volume. (Jeukendrup, Achten, 2001)

 (Swain, Franklin, 2006) (Kraus e Colaboradores, 2002) relatam em seu estudo que o efeito sobre o HDL-c é proporcional à atividade física independente do nível de aptidão de cada indivíduo. Portanto, a realização de exercícios mais intensos e mais freqüentes, parece exercer um efeito maior sobre o HDL-c. O alto valor da razão de troca respiratória (RER) durante o exercício tem correlação positiva e está associada ao aumento nos níveis plasmáticos de HDL-c. (Price, Halabi, 2005) (Hernández-Torres e Colaboradores, 2009). Em estudo recente (Stasiulis e Colaboradores, 2010) mostraram que dois meses de treinamento de moderada à alta intensidade, realizado três vezes na semana, podem elevar significativamente os níveis plasmáticos de HDL-c.

Em um estudo realizado por (Duncan e Colaboradores, 2005) participaram 492 indivíduos saudáveis e sedentários, com idade entre 30-69 anos, submetidos ao treinamento aeróbio durante seis meses e divididos em cinco grupos:

A - Baixa Intensidade e Baixo Volume (45-55% FC / três a quatro dias por semana)

B - Baixa Intensidade e Alto Volume (45-55% FC /cinco a sete dias por semana)

C - Alta Intensidade e Baixo Volume (65-75% FC /três a quatro dias por semana)

D - Alta Intensidade e Alto Volume (65-75% FC /cinco a sete dias por semana)

E - Grupo Controle

 O estudo concluiu que o treinamento de alta intensidade e alto volume foi a única intervenção que produziu efeito significativo sobre os níveis plasmáticos de HDL-c. Em outro estudo de (Slentz e Colaboradores, 2007) 249 indivíduos sedentários, com sobrepeso e dislipidemia, com idade entre 40-62 anos, foram submetidos ao treinamento aeróbio durante seis meses e divididos em quatro grupos:

A - Baixa Intensidade e Baixo Volume (40-55% VO2 máx/~12 milhas por semana)

B - Alta Intensidade e Baixo Volume (65-80% VO2 máx/~12 milhas por semana)

C - Alta Intensidade e Alto Volume (65-80% VO2 máx/~20 milhas por semana)

D - Grupo Controle

Concluiu-se após o período que somente o treinamento de alta intensidade e alto volume resultou em melhorias sustentadas no HDL-c, sugerindo que este de fato seja o maior modificador de metabolismo do HDL-c em resposta ao treinamento.  Uma das hipóteses sobre o aumento do HDL-c em resposta ao exercício seria a redução da atividade da proteína de transferência de colesterol esterificado (CETP). A CETP remodela as HDLs transferindo colesterol esterificado de HDLs a VLDLs em troca de triglicérides (TG). (Durstine, Grandjean, 2002). Outro possível mecanismo de incremento do HDL-c seria uma redução da enzima lipase hepática (HL), que reduziria a velocidade de captação hepática do (HDL2-c) e resultaria em uma alta concentração plasmática de HDL-c. (Ferguson e Colaboradores, 1998)

De acordo com (Slentz e Colaboradores, 2007) o exercício de alta intensidade tende a uma capacidade mitocondrial aumentada, levando a uma maior mobilização de TG como resposta aos altos níveis de catecolaminas derivadas da prática de exercícios de alta intensidade. Ainda, a redução de TG está relacionada com a produção aumentada do HDL-c, fato que ocorre também (aqui) durante o exercício aeróbio. A lipase lipoprotéica (LPL) que mede a hidrólise do TG, mostra-se com sua ação aumentada em resposta ao exercício (Olchawa e Colaboradores, 2004), isso pode ajudar no reabastecimento de TG intramuscular usado durante o exercício, além de também fornecer o substrato na produção do HDL-c.

Além da intensidade, o volume de exercícios realizado é uma importante variável na promoção de um aumento efetivo nos níveis de HDL-c. (Kraus e Colaboradores, 2002). Em seu estudo (Kraus e Colaboradores, 2002) submeteram 84 indivíduos sedentários, com sobrepeso e dislipidemia, com idade entre 40 e 65 anos, realizaram o treinamento aeróbio durante seis meses e foram divididos em quatro grupos distintos:

 A - Baixa Intensidade e Baixo Volume (40-55% VO2 máx e 19.2km por semana)

B- Alta Intensidade e Baixo Volume (65-80% VO2 máx e 19.2km por semana)

C - Alta Intensidade e Alto Volume (65-80% VO2 máx e 30.7-33km por semana)

D- Grupo controle

O grupo denominado A, não apresentou melhora significativa quando comparado aos demais grupos. Os outros dois grupos que realizaram o treinamento de alta intensidade (B e C) obtiveram melhora semelhante na aptidão física, conforme medido pelo consumo máximo de oxigênio (VO2 máx), contudo, apenas o grupo que realizou o treinamento de volume mais elevado obteve melhora geral no perfil das lipoproteínas. O estudo ratifica a importância do treinamento aeróbio de alta intensidade na melhora do VO2 máx. Contudo, o mesmo estudo mostra que a intensidade do exercício foi menos relevante que o volume de treinamento em termos de resposta das lipoproteínas. O último mostrou-se mais efetivo na melhora de tal perfil.

Recente meta-análise realizada sobre o efeito do treinamento aeróbio na modulação dos níveis plasmáticos de HDL-c, corroborou o supracitado, relatando que de fato as características do exercício (volume e intensidade), são os principais preditores de mudança nos níveis de HDL-c sendo mais uma vez o volume do treinamento por sessão o mais importante preditor de alteração no HDL-c. (Kodama e Colaboradores, 2007).

Conclusão

O treinamento aeróbio de alta intensidade mostrou ser mais efetivo que o treinamento aeróbio de baixa intensidade no aumento dos níveis plasmáticos de HDL-c, levando em consideração o gasto calórico promovido pela realização de exercício aeróbios em uma faixa maior de freqüência cardíaca e VO2 máx mais elevado.

Em conclusão, o treinamento aeróbio de alta intensidade apresenta uma melhor eficiência de tempo em relação ao mesmo treinamento realizado em baixa intensidade, muito embora o segundo também promova um aumento nos níveis plasmáticos de HDL-c, as custas de um maior volume de treinamento. Contudo, não é só a quantidade elevada dos níveis plasmáticos de HDL-c que parece ser o mais importante para o efeito cardioprotetor, e sim a melhor funcionalidade nas suas diversas ações, como: anti-oxidante, anti-inflamatória, anti-apoptótica, agregação plaquetária e vasodilatadoras. Mais estudos são necessários para explicar a relação quantidade versus funcionalidade, provendo assim uma melhor ferramenta no auxílio da prevenção de doenças cardiovasculares.

Referências Bibliográficas

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4 Comentário(s)! Comente mais!

  1. Marciano C.Daniel

    Professor esse artigo e nota 10, foi tudo o que vc passou em nossa aula, bem detalhado.
    Parabens!!!

    Postado em 30/05/2010
  2. Marciano C.Daniel

    Professor o artigo é nota 10, tudo o que vc passou em sala de aula bem detalhado.
    Parabens!!!!!!

    Postado em 30/05/2010
  3. leonardo

    Parabéns querido professor
    Este artigo ficou realmente impressionate!
    Mostrando todas as melhorias que estas pesquisas podem nos trazer, em nossas vidas profissionais!
    Contudo, qual seria a sua opinão para que profissonais de acadêmia, poderem estar levando este treinamente de alta intensidade e alto vlume para uma melhora significativa de seus alunos? aguardo sua resposta!

    Postado em 15/07/2010
  4. Carnevali Júnior

    Ola Leonardo, Primeiramente obrigado pelo acesso. Quanto a sua pergunta, esta bem claro na literatura ue o trabalho de alta intensidade e eficiente mesmo em academias. O maior problema e a consciência corporal necessaria por parte dos alunos. Contudo acredito que bem administrado apresenta de fato, resultados excelentes. Em breve estaremos lançando um livro sobre o assunto. Espero q contribua para sua formaçao.
    Um abraço

    Postado em 15/07/2010

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