Professor Esp. Júlio Cezar Papeschi da Silva
Professor dos Cursos de Pós Graduação da Universidade Gama Filho
Professor da Faculdade Anhanguera de Taboão da Serra
Questões éticas envolvendo o esporte de alto rendimento e o doping parecem se confundir com a própria história do esporte competitivo. Seriam possíveis as quebras de recordes sem a utilização de substâncias proibidas que ajudem a potencializar a performance esportiva? E mais, será que treinadores e atletas estariam dispostos a abrir mão de tais recursos?2.
A busca incansável por melhores resultados leva atletas a utilizarem de estratégias perigosas e elícitas, que acabam por colocar em risco sua integridade física.
O esporte brasileiro ficou surpreso no segundo semestre de 2009, véspera do mundial de atletismo, quando atletas que compunham a seleção brasileira, foram flagrados no anti dopping com a utilização de substância eritropoetina (Epo)1.
Procuraremos entender adiante os motivos pelos quais atletas buscam a utilização deste hormônio para melhoria de seus resultados
Em qualquer livro clássico de fisiologia encontramos a figura marcante das “catracas fisiológicas” que representam o transporte do oxigênio do meio ambiente até o músculo7. Atletas de endurance dependem da eficiência deste sistema para que a atividade se prolongue e se mantenha na intensidade adequada.
Quem realiza o transporte oxigênio para as células no sistema circulatório são os eritrócitos (células vermelhas), através da afinidade que o oxigênio tem com a hemoglobina que é o principal constituinte de tais células4.
Desta forma se aumentarmos a quantidade de eritrócitos conseqüentemente o aumentaríamos o transporte de oxigênio para o músculo, e este estivesse preparado para recebê-lo, melhoraríamos a performance, ou seja, o conceito clássico do Vo2 máx..
O doping pela Epo é utilizado principalmente por atletas de modalidades esportivas, onde a exigência do elevado aporte de oxigênio tecidual se faz necessário, usualmente classificadas como atividades aeróbias2.
Em nosso organismo a medula óssea de alguns ossos é responsável pela produção de sangue e esta produção é regulada pela Epo.
A Epo é um hormônio endógeno de natureza glicoprotéica, sintetizado principalmente em células epiteliais que revestem os capilares peritubulares renais 2,13. Cerca de 90 % da EPO produzida no organismo é sintetizada pelos rins e os 10% restantes pelo fígado, cérebro, útero e pulmões2,13. Esta citosina é responsável pela produção de células vermelhas, bem como a diferenciação eritrocitária e o início da síntese de hemoglobina2.
Ao nascermos todos os nossos ossos contém medula capaz de produzir sangue.. Com o passar dos anos, a maior parte da medula vai perdendo sua função, sendo substituída por tecido gorduroso. Na fase adulta somente alguns ossos passam a desempenhar tal função.
A Hipóxia tecidual é o fundamental estímulo fisiológico que provoca um rápido aumento na produção de Epo renal através de um aumento exponencial do número de células produtora de Epo10
Quando esta baixa oxigenação tecidual mostra-se presente, a Epo é sintetizada e carreada pela corrente sanguínea até a medula óssea, agindo em células progenitoras eritrocitárias ocasionando um aumento de eritrócitos na circulação. Em relação a este aumento eritróide, observa-se que ocorre em cerca de um a dois dias após o pico plasmático da EPO. Estima-se que a meia-vida da eritropoetina, após o lançamento no sangue, seja de seis a oito horas e que seus níveis plasmáticos, no organismo humano, estejam em torno de 6,2 mU/mL (± 4,3).
O doping sanguíneo
Relatos da década de 708 mostram o artifício do uso do doping sanguíneo, especificamente em atletas de provas de endurance, usando de transfusões de sangue alguns dias antes de competições que previam o aumento do número de hematocritos e desta forma um aumento no transporte de oxigênio para os músculos. Tais procedimentos foram erradicados pelo COI em 1976, devido a questões éticas esportivas, mas principalmente pelos riscos altos a saúde dos atletas2.
A dopagem por transfusão sanguínea começou a ser substituída em função da necessidade da presença de médicos e dos riscos relacionados a possíveis incompatibilidades sanguíneas e infecções que tal procedimentos poderiam causar.
O avanço das técnicas da ciência moderna levaram o homem a produzir uma forma sintética (rHuEpo) da Epo humana para solucionar casos de doenças como as anemias causadas pelas doenças renais crônicas, e de pacientes que precisavam realizar constantemente transfusões de sangue, como forma a auxiliar no tratamento de tais patologias.
No entanto, mais cedo ou mais tarde o uso de tal terapia se tornaria uma realidade para atletas. Suspeitas de casos de utilização da (rHuEpo) voltados para o rendimento esportivo aparecem descritos desde a década de 80. Atletas que competiam em provas ciclismo morreram misteriosamente por falha no sistema cardiovascular e que posteriormente a atribuição de tal fato se deveu a utilização da (rHuEpo).
A agência mundial anti dopping (WADA) incluiu a Epo em sua lista de substâncias proibidas a partir de 1987, devido justamente a esta capacidade de aumentar a quantidade de glóbulos vermelhos e aumentar o transporte e conseqüente aporte de oxigênio para o músculo, mas sobretudo pelos riscos que ela poderia causar.
O que pareceu estranho nos casos dos atletas brasileiros flagrados, foi à utilização desta substância por atletas de modalidades do atletismo que dependem de sistemas energéticos de alta energia situação esta, em que a eritropoetina teoricamente não teria uma contribuição marcante como provas de 100 e 200 metros rasos.
Eritropoietina humana recombinante
A evolução das técnicas de engenharia genética permitiram a produção de uma forma análoga a Epo endógena, a Eritropoietina humana recombinante (rHuEpo), que passou a ser comercializada em 1989 como forma de auxiliar nos tratamentos de quadros de anemias severas devido a complicações renais. Seu uso também é indicado para pacientes que se submetem a sessões de quimioterapia, no tratamento de doenças auto imunes como a AIDS, casos de transfusões de sangue devido a ocorrências de intervenções cirúrgicas, entre outras, trazendo uma melhor qualidade no atendimento dos pacientes6.
Efeitos colaterais relatados na literatura envolvidos na terapia da base da (rHuEpo), se tem relato de náuseas, ansiedade, dores de cabeça, febre e letargia. Ainda outros efeitos do uso da (rHuEpo) podem aparecer como hipertensão arterial10, tromboembolias11, aumento da viscosidade sanguínea e diminuição do débito cardíaco12 ,devido ao aumento dos hematócritos, diminuição dos níveis séricos de potássio, infarto no miocárdio, morte súbita entre outras.
Todos estes efeitos se tornam mais evidentes quando a as dosagens de (rHuEpo) elevam os níveis dos hematócritos para valores entre 50 e 55%.
Eritropoetina e o desempenho no esporte
A prática esportiva por si só parece não ter muitos efeitos sobre a síntese da Epo9.
Ekblom, verificou em 2007, aumento no Vo2 máx. e no tempo de exaustão em corridas em esteiras após o uso de sessões de injeções subcutâneas de (rHuEpo) por várias semanas. Aundran também verificou um aumento do Vo2 máx, nos limiares ventilatórios e diminuição da freqüência cardíaca depois de 25 dias de administração de (rHuEpo).
Dopping genética e eritropoietina
O uso da dopagem genética já parece ser uma realidade em tratamentos experimentais com pacientes com quadros renais crônicos.
Tratamento com a introdução de genes da eritropoietina asinda estão em fasse3 experimental e aprasentam um grau de confiabilidade ainda baixo. Valores de até 75% de hematócritos tem sido encontrados em ensaios, valores estes incompatíveis para um ser humano.
Zou e colaboradores conseguiram com sucesso transferir uma cópia adicional do gene da eritropoetina em macacos e ratos, sugerindo que esse tipo de doping já seja factível.
Embora os experimentos tenham sido realizados em poucos animais, eles mostraram altos níveis de expressão de eritropoetina e um aumento significativo do hematócrito (de 49% para 81% em camundongos e de 40% para 70% em babuínos) que durou mais de 12 semanas
Entretanto, é muito provável que a super-expressão de eritropoetina tenha efeitos prejudiciais importantes em pessoas saudáveis, haja vista que foi observada uma elevação muito acentuada do hematócrito de macacos (de 40% a aproximadamente 80%). Isso obviamente pode representar um risco sério de comprometimento da função cardiovascular, incluindo dificuldade de manutenção do débito cardíaco e da perfusão tecidual, devido ao substancial aumento da viscosidade sanguínea.
No entanto os mesmos pesquisadores alertaram para o possível risco de trombose com hematócrito aumentado, exigindo flebotomia profilática.
Além disso, foi relatada anemia grave em alguns animais por causa de uma resposta auto-imune à transferência do gene extra(35
De acordo com a Agência Mundial Anti-Doping (WADA), doping genético ou celular é definido como ”o uso não terapêutico de genes, elementos genéticos e / ou células que têm a capacidade de melhorar o desempenho atlético”, e, desde 2003 , esta foi incluída na lista da WADA de substâncias e métodos proibidos
A dificuldade na detecção desta macromolécula é o maior empecilho para se conseguir o flagrante uso, devido principalmente a sua baixa concentração nos fluidos biológicos.
Milhões de dólares foram gastos na última década na tentativa de a dopagem com as formas análogas a Epo humana.
Contagem de hematócritos, reticulocitose, macrocitose, receptores de transferrina solúvel, tem seus valores mascarados pois esbarram em limitações na coleta do sangue em função do estado de hidratação do atleta, hora da coleta e até postura corpórea do atleta.
Pesquisadores da Universidade de Quebec analisaram a urina de atletas após a participação e encontraram elevadas concentrações de produtos de degradação da fibrina e do fibrinogênio, proteínas sanguíneas participantes da cascata de coagulação. O cruzamento de informações como, a que a prática da atividade esportiva não levaria a este quadro e que a Epo estaria envolvida de em tal processo os pesquisadores encontraram uma forma interessante de detecção do doping pela Epo.
Na olimpíada de Sidney em 2000 o COI apertou o cerco aos atletas obrigando-os a fazer os testes anti doping através da urina e do sangue, com a eliminação do evento pelos atletas que se recusassem a realizar os testes por questões éticas ou religiosas.
Testes vem sendo aprimorados de forma a conseguir buscar precursores dos eritrócitos ou o produto final de seu caminho pelo organismo.
Considerações finais
Os mecanismos pelos quais a eritropoetina melhora a performance no organismo humano precisam ser melhor elucidados .
O custo elevado e os elevados riscos devem levar os atletas a repensarem suas estratégias nas buscas por melhores resultados.
Bibliografia
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